I N T R O D U Ç Ã O
"Este conto foi escrito em 1992 mas é atual porque trata das consequências de uma guerra nuclear mundial. Foi publicado aqui em São Paulo no lendário ‘fanzine’ ‘Megalon’. Se referia indiretamente à hostilidade entre a extinta União Soviética e os Estados Unidos, mas a atual Rússia já se tornava capitalista.
Inspirei-me em um livro de 1985, do
astrônomo e biólogo estadunidense Carl Sagan (1934 - 1996) - aquele da antiga
série "Cosmos" -, sobre o tema. Eu queria mostrar os efeitos não só
da guerra, mas também das consequências. Era e é um alerta sobre os perigos de
uma guerra nuclear. Tudo de ciência, física, que há no conto pode acontecer e,
inclusive, coloquei a estória no Brasil porque todos os países do mundo seriam
afetados.
Curiosidade: imaginando o cenário da Terra
após o inverno nuclear, ele é extremamente parecido com filme ‘A Estrada’
(Brasil 2010) (‘The Road’ - 2009), com o ator Viggo Mortensen.
Existe hoje a problemática dos países
islâmicos, embora nem todos, que odeiam Israel e os Estados Unidos, construindo armas nucleares, ou seja, o tema
voltando a ser atual, infelizmente.”
1 - A passagem
A pequena lâmpada acendeu às seis e vinte
da manhã. Permaneceu assim por instantes, mas André Luiz acordou sobressaltado.
Uma coincidência que, ao vê-la acesa, se levantou da cama e correu até ela;
ficava na parede oposta de onde dormia. Depois de tanto tempo apagada ele não
acreditava no que via: os indicadores de radiação mostravam que ele poderia
sair dali com as roupas apropriadas. Bateu com os punhos na parede e gritou:
"Até que enfim!". Foram muitos os momentos de angústia, agonia e
raiva. Esperava por aquele momento durante mais de um ano.
Seu coração disparou, estava ofegante.
Correu para o armário perto da cama. Era um dos dois do quarto e havia cinco
gavetas enormes com capacidade para dezenas de peças de roupas. Foi direto à
última delas. Afobado, começou a revirar um dos trajes, mal conseguindo achar a
abertura aonde, literalmente, iria se enfiar. O traje era de cor cinza escuro com
uma máscara que era uma verdadeira continuação da roupa. Tudo isto para não se
ter nenhuma abertura além daquela por onde a vestiria. A máscara continha
filtros contra radiação e gases tóxicos, sendo o visor pouco escuro, mas
impermeável aos raios ultravioletas.
Por um momento, preocupado, olhou
novamente para a lâmpada; tinha se apagado. Largou a roupa, deixando-a cair na
gaveta ainda aberta. No seu olhar havia uma expressão de perplexidade como se
perguntasse a si mesmo porque ela se apagou. Sentiu-se completamente frustrado;
gritou selvagemente: "Não!". Chegou bem perto dos indicadores com a
lâmpada no meio. Ali mostrava radiação perigosa para qualquer um mesmo com
trajes especiais. Uma exposição de segundos poderia comprometer gravemente a
sua saúde.
André sentou-se em posição ioga. Lágrimas
escoaram de seus olhos e colocou as mãos na cabeça abaixando-a. Desolação igual
só sentiu quando leu nos livros da sala que não poderia sair dali enquanto
aquela luz estivesse apagada.
Nada de acender. Ele não compreendia e nem
poderia. Nunca ninguém havia passado por isso; não figurava em livro algum, em
projeção nenhuma. A radiação deveria estar se dissipando.
Em instantes deveria ter havido nos
arredores uma flutuação, pois atingiu um valor em que se poderia sair dali com
a roupa especial. Um vazio momentâneo nos receptores externos do abrigo fez com
que se acusasse uma queda suficiente no sistema para a lâmpada automaticamente
se acender. É o mesmo que acontece no céu encoberto quando o Sol aparece devido
a um buraco nas nuvens. Esse buraco do qual ele não sabia foi uma passagem de
um "vazio de radiação" por onde ficava o abrigo.
2 - A sala
André se levantou limpando o rosto. Caminhou em direção à sala ao lado.
Em uma poltrona ao centro, já sentado, ligou o controle remoto de uma
televisão. Apertou um botão pelo qual o próprio aparelho procurava os canais,
parando naquele que desse alguma imagem. Ficou olhando e esperando algum sinal
como fez muitas vezes antes, mas na tela apenas aparecia uma imagem negra
pontilhada de branco. Os pontos piscavam intermitentemente em uma dança caótica
que ele nunca viu nada parecido antes de entrar no abrigo. "Será que
alguém, em algum lugar, viu algo assim?", pensou.
A televisão possuía uma antena capaz de sintonizar qualquer emissora do
mundo lá fora. Não demorou muito para ele ter certeza de que mais uma vez nada
chegava até ali. Desligou-a. Da poltrona foi à estante onde ligou o rádio. O
mesmo chiado contínuo, grave e enervante de sempre... A radiatividade deturpava,
interferia nas ondas eletromagnéticas.
Em cima da televisão havia um aparelho para se assistir filmes. Shows e
documentários também faziam parte de um acervo para se vencer o tédio do
abrigo. O tédio que deixaria qualquer um transtornado. Mais ainda, na sua
moradia talvez provisória, um aparelho de som. André ouvia Bach, passando por
estilos musicais como MPB e rock. Passava horas, todos os dias, apreciando as
músicas.
Acabou por sentar novamente no meio da sala. Uma câmara externa
giratória filmaria por sobre o abrigo. Um detalhe essencial para ter contato,
pelo menos visual, com o exterior, mas a lente estava impregnada por
fuligem e poeira levantadas pelas bombas nucleares. Não se via nada.
André repetiu todo o ritual nos aparelhos durante um ano e quatro meses,
sem resultado. Acostumou a isso de tal forma que lhe parecia não poder
larga-lo. Já era uma obsessão. Frequentemente, em uma atitude automática,
febrilmente até, mexia mais de uma vez por dia. Agora tentou o sistema de
telefonia e também nada. Exibia o chiado grave da televisão. Sons e imagens
muito estranhos surgiam pelos canais das comunicações.
A sala não era constituída só por aparelhos eletrônicos. Continha uma
biblioteca com uma variedade muito grande de assuntos. Até jogos para se
distrair; dezenas deles. Sempre era preciso arrumar algo para fazer e esquecer
a solidão crua daquele abrigo. E esquecer também como deveria estar o mundo lá
fora. André o imaginava com terror: um mundo enfumaçado, calcinado, com bilhões
de restos de cadáveres. Nenhum verde, nenhuma luz, tudo cinza, um mundo
morto...
Em um dos lados da sala estava um conjunto estofado para que se pudesse
sentar e conversar. Uma sala de estar junto àquela outra, com a parafernália
eletrônica toda. Havia até um jardim interno para quebrar a monotonia dos
móveis e aparelhos. Samambaias, avencas... Faziam parte do cenário verde ali
dentro. Um alívio para os olhos de quem não via o verde das plantas na
superfície do planeta há tanto tempo.
3 - O homem e a guerra
Alguém simples, de boa índole, às vezes impulsivo. No íntimo um desejo
comum de ser chefe de família como tantos outros; um sonho também comum. Sua
amada distante, que não a veria mais, o satisfazia em voos solitários na sua
imaginação, na busca de prazeres próprios, como um adolescente em seu corpo por
toques e carícias sem fim. Lembrava-se de Simone por sua lealdade em um
relacionamento de seis anos. Uma viagem e nunca mais notícias.
Política para ele sempre foi motivo de desinteresse. Uma separação
completa entre sua pessoa e os problemas não só de seu país, mas de seu planeta
também. Perguntava-se tolamente o que teria de culpa nos acontecimentos que o
cercava; pura ingenuidade e egoísmo de seu desespero e consternação. Católico
praticante buscava alívio a seu espírito amedrontado em orações e preces aos
seus parentes e Simone. A vontade de passar para seus filhos o que aprendeu
vivendo, a sua formação, constituía o seu ideal de vida, mas tudo destruído
pelo seu semelhante. A culpa sim, de nossa condição natural de seres
imperfeitos e inteligentes, ambiciosos e prepotentes. Daquilo impossível de se
mudar. A culpa de ninguém especificamente.
Lia histórias quando criança de bravos generais comandando suas tropas
para aniquilar os inimigos. Conquistas de terras e riquezas pelos mais fortes,
visto como "filosofia" de guerra, perdida em sua origem nos confins
de épocas remotas. Tão antigas quanto à civilização. Mas muito tempo depois o
quadro mudara com a invenção das armas atômicas. Aqueles países com grandes
exércitos, soldados treinados, marinha e aviação eficientes, temeram outros
menos vigorosos, só que dominantes da tecnologia nuclear. Mas a imaginação dos
senhores das estratégias de batalhas não se deu por vencida e a "guerra
nas estrelas", interceptando mísseis antes de atingirem seus países,
fizera renascer a "filosofia" de guerra temporariamente esquecida. O
medo da destruição do inimigo, mas também da sua, teve seu fim nos potentes
lasers disparados do espaço. O que não se fazia ideia era do potencial de cada
país, com seus satélites prontos para entrarem em ação na "sofisticada
guerra nas estrelas".
4 - O inverno nuclear
André Luiz da Veiga Lopes tinha trinta e seis anos, era agrônomo e
trabalhava como administrador na fazenda Amaralina, do seu cunhado, o físico
João Antunes Rocha. A fazenda se situava entre a capital São Paulo e a cidade
de Ribeirão Preto, no interior paulista, com alqueires de pastos, plantações de
laranja e pequenas matas cortadas por lagos e riachos.
André sempre zombava de João a respeito daquela estranha construção:
"Pra que tudo aquilo? Guerra nuclear? Isto nunca irá acontecer",
sempre o indagava.
João Antunes era obcecado por física nuclear e as guerras eram de seu
maior interesse para estudo e especulação. Sempre dava palestras em
universidades enfocando o problema da destruição nuclear. Era casado com Ana,
irmã de André. Haviam viajado para o nordeste quando o conflito teve início no
hemisfério norte. Uma pane geral nos sistemas de comunicação e computação,
devido às primeiras explosões, descontrolou os ataques cirúrgicos e de força. Perdeu-se
o controle da guerra. Países como a Argentina, Brasil, Venezuela, Coreia do Sul
e do Norte, Irã e outros do Oriente Médio estavam na luta surpreendendo aqueles
que ainda duvidavam de suas tecnologias nucleares. Estudos realizados em 1983,
por eminentes cientistas das áreas de física, biologia, climatologia, etc.,
liderados pelo astrônomo estadunidense Carl Sagan, mostraram a possível e
terrível situação mundial de pós-guerra nuclear geral ou parcial.
Norte-americanos, europeus e soviéticos, em unanimidade, coisa difícil de
ocorrer com tantos estudiosos a respeito de um só assunto, concordaram que
entre outros fatos o clima da Terra mudaria totalmente.
Em primeiro momento, as explosões levantariam fuligem e poeira
suficientes para não deixar passar, por meses, mais de cinco por cento da luz
do Sol incidente no planeta. Grande parte dessa fuligem viria da queima de
materiais inflamáveis das grandes cidades como madeiras, plásticos etc. Outra
parte viria das florestas e matas baixas, queimadas à distância pelas bolas de
fogo das bombas a quilômetros dos centros das explosões. A poeira seria devida
a explosões de alta energia no solo. Em consequência, a temperatura nas áreas
continentais dos ataques desceria a menos de 0º exterminando as formas de vida
sensíveis ao frio. Aos poucos a fuligem e a poeira se espalhariam, pelos ventos
e correntes de ar, através do planeta e levando dias e noites gelados para toda
a área continental do globo. Os rios e lagos ficariam com camadas de gelo de
até um metro de espessura. A radiação ionizante seria muito intensa nas cidades
e em seus arredores, e, ainda, levada pelos ventos, afetaria outras regiões
distantes.
A catástrofe não pararia por aí. Os artefatos explodidos liberariam
óxidos e dióxidos de nitrogênio. Estes compostos reagem com o ozônio da
atmosfera e acabam por elimina-lo, deixando assim caminho livre para os raios
ultravioletas. Barrados pela poeira e fuligem, teriam seus efeitos maléficos
nos seres vivos meses depois da guerra, quando essas abaixassem. A radiação
ionizante, levada também às altas camadas da atmosfera, desceria, talvez por
meses ou mais. Conhecida por precipitação radiativa castigaria ainda mais os
meios ambientais do planeta.
De um modo geral, os animais e as plantas morreriam pelo frio intenso,
radiatividade, precipitação e raios ultravioletas. Todo ser vivo resistente a
qualquer um desses fatores sucumbiria à ação dos outros três juntos em um
fenômeno de nome "efeito sinérgico", onde o todo é maior que o efeito
das partes somadas isoladamente.
Os cientistas chamavam de "inverno nuclear" a fase gelada e
escura na qual todo o planeta estaria envolto depois da hecatombe. O arsenal
nuclear mundial conhecido por todos, naquele ano, era de aproximadamente quinze
mil megatons, o suficiente e sem exageros por parte deles, para gerar a maior
tragédia que o homem jamais imaginou para si e seus habitats. O pior não seriam
as explosões com liberação de radiatividade como todo o mundo conhecia de
Hiroxima e Nagasaki...
5 - O café da manhã
André acabou por se levantar da poltrona. Sentado ali muitas vezes
conversava sempre consigo mesmo. Chegava até a mudar de lugar para simular
outra pessoa conversando com ele. Apenas uma ilusão para não se sentir tão só!
Foi ao banheiro, lavou o rosto e escovou os dentes. Voltou ao quarto e
tirou o pijama. Obrigava-se a executar esses atos rotineiros de uma vida
normal: era preciso preservar o seu equilíbrio mental. Olhou outra vez para a
lâmpada, mas não se deteve por muito tempo. Vestiu sua roupa e foi à dispensa
na cozinha. Esta era comprida com armários nos dois lados das paredes. Sete
toneladas de alimentos liofilizados sustentariam três pessoas por até dois
anos. Pegou leite em pó, açúcar e chocolate, misturou tudo em um copo d'água e
sentou-se à mesa das refeições.
Ali começava um novo dia. Leria, veria filmes, jogaria. Faria tudo que
se acostumou a fazer, mas o desejo de sair dessa prisão era muito grande e
opressivo. Não o fazia devido aos relógios da radiação externa. Não havia
contato nenhum com o mundo lá fora e sua única informação era sobre os níveis
de radiação e ultravioleta. O mundo estava morto, nada funcionava porque não
existia ninguém para fazê-lo.
Ele sobreviveria com todo o aparato concebido e construído por João. O
próprio ar que respirava era filtrado contra a radiação de fora para dentro e
ainda circulava em sentido inverso sem perigo de contaminação dentro do abrigo.
O mesmo acontecia com a água de uso geral proveniente de um lençol subterrâneo.
E a água utilizada, junto com o lixo, era descarregada em outro lençol, sendo
barrados os gases ali formados por filtros específicos. Todo o abrigo era feito
de concreto de um metro e meio de espessura. Suas paredes continham placas de
chumbo com a largura de meio centímetro. A temperatura externa que havia caído
a cinquenta graus negativos, logo depois da hecatombe, era agora de cinco graus
positivos. Três geradores forneciam eletricidade até para o aquecimento interno
e foram feitos para durarem quase dois anos. André vivia confortavelmente a
vinte e três graus todo esse tempo.
Depois do leite com chocolate, André comeu uma torta de maçã. Escovou
mais uma vez os dentes e foi ler na sala. "Desarmamento? Piada",
escrevera João no verso da capa de um livro sobre o
assunto. Os países mais poderosos do mundo sempre teriam armas para enfrentarem
quaisquer outros. À vista do público mundial, da mídia poderosa, de políticos
internos e estrangeiros, foram ótimas as encenações filmadas para a televisão
de reuniões de chefes de estado, desde as décadas passadas. Mentiras
disfarçando desejos cada vez maiores de evolução nuclear estratégica.
"Estou sendo ingênuo ao escrever isso. Acho que muitos sabem, ou pelo
menos desconfiam dessas coisas", terminou João.
André sentia falta da irmã e do cunhado, mas sabia que os dois não
poderiam estar vivos. As explosões no Rio de Janeiro e em São Paulo
congestionaram o tráfego aéreo e terrestre de quase todo o país e interromperam
os sistemas de comunicação. João e Ana foram pegos de surpresa. A capital de
São Paulo, sede de depósitos de materiais radiativos para pesquisa e
desenvolvimento de armas, fora duramente atingida. Dez megatons foram
suficientes para arrasa-la em segundos e todas as grandes metrópoles do planeta
foram alvos para se tentar desestabilizar a força de seus países.
A guerra, no total, liberou por volta de trinta mil megatons de energia
explosiva, além do calculado pelos cientistas. Os países acreditaram nas suas
estratégias de "guerra nas estrelas" e contra -"guerra nas
estrelas". Com satélites espiões sofisticados, sabiam em grande parte onde
estavam as bases inimigas. O problema era o tempo, como os seus computadores
tratariam informações recebidas sobre os ataques para neutraliza-los. E como
atacariam sem os outros os neutralizarem. Nesse círculo vicioso é que se perdeu
o controle da guerra.
Havia se passado um ano e quatro meses que André, ao ver de longe um cogumelo
atômico, entrou no abrigo, trêmulo e inseguro do que estava acontecendo. Ele
tinha ajudado a construi-lo e não perdeu tempo em se esconder. Lembrava-se dos
comentários de João sobre cogumelos, radiatividade e guerra nuclear. O aviso de
que deveria se refugiar foi uma bomba errante caída a quilômetros da fazenda
Amaralina. Logo em seguida pôde ver nos mostradores que ficaria enclausurado
não tendo opção senão esperar. Um deles era de radiação ionizante e outro de
ultravioleta. André aprendera por ocasião das obras junto ao cunhado. Sabia ler
os relógios e tinha alguma noção do que eram as radiações por eles indicadas.
Depois de quase um ano, a maior parte da fuligem fixada na troposfera e
em menor quantidade a poeira estratosférica, se assentaram. Os raios
ultravioletas acabaram com as últimas formas de vida que resistiram ao frio e à
radiação. Nem a fauna e a flora de ilhas marítimas distantes escaparam. Mas o
planeta reagia produzindo ozônio e barrava esses terríveis agentes. O Sol
voltou a brilhar timidamente e agora, pouco mais de quatro meses depois, a
radiação apresentava buracos e os raios ultravioletas não eram tão fortes.
6 - Os novos vazios
A lâmpada acendeu novamente e André, confortavelmente no sofá, pegou
outro livro. Tinha retirado três na estante, apenas para folhear e este agora
era de ecologia. Ao ver esta palavra na capa, lembrou-se tristemente das matas
da fazenda, dos riachos com lambaris, piavas e tilápias. Leões e tigres vistos
na televisão, pássaros e borboletas de grandes diversidades de cores e tons...
Ela continuou acesa e ele deixou o livro de lado. Fitou o jardim. A sua
angústia era causada pela solidão nunca sentida e experimentada por ninguém.
Pensou em um astronauta sozinho de uma nave. A solidão dele não era mais
pungente do que a sua e ele tinha esperança de voltar e encontrar tudo como
havia deixado: o lar, a natureza, os amigos, as crianças, tudo. E ele, André?
Sair dali para um mundo destruído? A sensação da não continuidade da raça
humana e de todos os seres vivos! Resolveu que deveria se controlar. Talvez
dormir um pouco, se possível.
Ao chegar ao quarto viu a luz acesa e se deteve sem nenhuma reação. De
pé, sem conseguir se desviar, olhava a lâmpada sem piscar, paralisado e inerte.
Depois de alguns minutos conseguiu sentar na cama. A luz não se apagou. A
radiação poderia voltar se saísse. Deitou-se com o travesseiro alto e sem tirar
os olhos da lâmpada presenciou o desligamento automático do interruptor. Dormiu
algumas horas e acordou com a luz acesa. Resolveu ser cauteloso: "o
intervalo de tempo entre acender e apagar foi bem maior na segunda do que na
primeira vez. Medirei esses intervalos se continuarem a ocorrer. Se a tendência
for de aumento do período de luz acesa, aí a minha saída estará próxima".
Não havia literatura para se basear, de quando sair ou não. João mesmo
tinha dúvidas sobre como a radiação diminuiria até ao valor aceitável.
Dependeria de muitos fatores, climáticos inclusive.
Apagou-se. Ele pegou um relógio no criado-mudo e verificou que eram onze
e trinta e cinco da manhã. Estava disposto e animado; não poderia ser
coincidência esse piscar cada vez mais demorado da lâmpada, imaginou. Novamente
o filamento brilhou. Dessa vez foram quatro horas até se apagar. "Alguma
coisa está acontecendo", refletiu André.
Três, e quarenta e cinco da tarde e ele continuou na cama. Sem beber e
sem comer, concentrado na lâmpada, presenciou mais uma vez o acender que tanto
lhe enchia de esperança. Apagou somente à meia-noite, brilhando logo em
seguida. A madrugada inteira se passou e já eram oito da manhã. Não dormiu
nada, só esperou.
Começou a ficar muito tenso, suando frio e sentindo seu coração bater
forte. Não podia esperar mais. Foi ao guarda-roupa e vestiu o traje nuclear.
Calçou botas próprias, ajeitou a máscara contra o rosto e se dirigiu a uma
porta de chumbo da sala. Um botão a fez deslizar lentamente da esquerda para a
direita mostrando outra sala de seis metros quadrados com uma porta idêntica
que dava para fora. Entrou e fechou a primeira. Pressionou outro botão e um
fraco raio de sol adentrou a sua esquerda.
André sentiu uma emoção violenta: medo, pânico, curiosidade e alegria se
misturavam. O Sol, tímido, ainda parcialmente cortado pelo pó estratosférico
iluminava o terreno cinza aos seus pés. Essa cor única jamais vista no chão aos
olhos humanos se estendia como um tapete fúnebre por quilômetros de distância.
Troncos de árvores sem folhas permaneciam como estátuas contemplativas do
acúmulo da fuligem do holocausto. O planeta Terra pagou caro pelo seu filho
mais ilustre.
Caminhou em linha reta sem olhar para os lados e parou cem metros
depois; revirou a fuligem do chão com o pé, chegando à terra roxa embaixo. Foi
até à sede da fazenda, às casas dos empregados e às plantações de laranja. O
que mais o impressionava era o silêncio de tudo: nada vivo nada vibrando, nada
mais.
De volta parou em frente ao abrigo, sentou-se, abaixou a cabeça e
chorou.
7 - O novo mundo
Um pouco menos desanimado pensou no estoque de sementes, de árvores
frutíferas e plantas comestíveis. João havia pensado em tudo. Revirando a terra
até mais de um metro depois da radiação diminuir ainda mais, ele sobreviveria
após o término dos alimentos liofilizados de dentro do abrigo.
Apesar de tanta mortandade no planeta, havia esperança. Bem no fundo dos
oceanos, a mais de quinhentos metros de profundidade, animais e peixes
adaptados à escuridão e poucos alimentos, sobreviveram ao que aconteceu bem
acima. Algumas plantas, principalmente algas, também não perto da superfície
das águas, aos poucos invadiriam terrenos pouco profundos. Dali para a terra
seria uma questão de tempo. Animais e peixes deslocados dos seus habitats
começariam a se adaptar também em locais mais rasos. Milhões de anos, menos
talvez, se passariam até que algum aventureiro começasse a se arrastar pelas
areias das praias. Ora fora da água, ora dentro, seria o ancestral dos futuros
animais terrestres. Anfíbios, répteis, aves e mamíferos como antes? Nada de
certezas, talvez parecidos: a evolução não possui sentido definido.
De volta ao abrigo, André verificou que os chiados do rádio e da
televisão já não eram mais como antes dele sair. Em um instante que ele não
esperava, uma voz feminina surgiu no sistema de telefonia:
- I'm
Barbara, I'm Barbara. My friend Rodrigo. Venezuela, Venezuela!
André se assustou, mas teve calma para apertar um botão. Na língua
universal, dois sobreviventes tentaram todo o tempo fazer chegar uma mensagem a
alguém. Em outro abrigo lá no alto do continente, venezuelanos passaram
isolados de André pela deturpação das ondas causadas pela intensa radiação
anterior. O homo sapiens não seria extinto. Para sempre se contaria uma
história a respeito de uma época próspera, mas conturbada, em que o homem
tecnológico decidia seu futuro na Terra. Em termos políticos e sociais, os
humanos seriam bem diferentes dos de hoje.
E então André respondeu gritando:
- Jo soy André! Brasileño, brasileño!







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